Só em 2024, nove milhões de passageiros usaram essa linha de ônibus, em um total de 3,3 milhões de quilômetros rodados
por Alessandra Pereira, Beatriz Fonseca, Clara Maria, Julia Duarte e Thaís Avilez
Seja dia útil ou feriado, ele parte às 4 horas da manhã do Tanque, região do bairro de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, até a Gávea, bairro nobre da cidade. Em seu caminho, passa pela Freguesia, pela Barra da Tijuca e pelo Jardim Oceânico até a Praça Nossa Senhora Auxiliadora, em frente à Sede do Clube de Regatas do Flamengo na Lagoa Rodrigo de Freitas. Dali, sem parar por mais de quinze minutos, volta ao Terminal Mestre Candeia em uma viagem de cerca de 30 km que dura mais de uma hora. Nesse vai e vem ininterrupto até às dez horas da noite, ele passa calor, estresse e escuta muita reclamação enquanto enfrenta o trânsito incontornável da grande metrópole.
Ele se cansa muito, mas em vez de pernas doloridas, têm pneus desgastados. Em vez de coração acelerado, um motor que ronca alto. A linha de ônibus 565 transporta milhares de pessoas por dia. Só em setembro de 2025, foram 683 mil passageiros, segundo o Relatório de Operação Mensal desenvolvido pela Coordenadoria Geral de Monitoramento da Secretaria Municipal de Transporte do Rio de Janeiro. No ano passado, 9 milhões de passageiros usaram o ônibus 565, em um total de 59 mil viagens e 3,3 milhões de quilômetros rodados, segundo o mesmo . Estas centenas de milhares de pessoas compartilham das mesmas queixas – as principais sendo o calor dentro do veículo e a superlotação enfrentada todos os dias.

“Independentemente do horário, o ônibus está cheio. […] Ás vezes, mesmo no horário de pico, eu chego na estação e só tem um carro e uma fila enorme. A fila só aumenta e o ônibus já sai cheio. […] Ele passa por muitos lugares e acaba indo entupido, o que não é bom para os cidadãos.”
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Vitor Manoel, morador do Tanque, é estagiário em um escritório de advocacia no Leblon, bairro vizinho à Gávea. Ele usa diariamente o 565 e afirma:
“Independentemente do horário, o ônibus está cheio. No horário de pico, o ônibus passa com uma frequência maior, mas, ainda assim, eu sinto que a linha não tem carro suficiente para poder incluir toda a população que precisa pegá-la. Às vezes, mesmo no horário de pico, eu chego na estação e só tem um carro e uma fila enorme. A fila só aumenta e o ônibus já sai cheio, sendo que ele ainda tem que pegar gente em todo o bairro de Jacarepaguá, na Barra [da Tijuca]… Enfim, ele passa por muitos lugares e acaba indo entupido, o que não é bom para os cidadãos”.

Porém, para o motorista Adriano, a queixa feita por alguns passageiros de que são poucos ônibus é injusta, uma vez que ele passa de 10 em 10 minutos. O problema, na visão do motorista, é que o 565 é o único transporte público a fazer seu trajeto: diferentes caminhos podem ligar um ponto da linha 565 a outro, mas com um tempo maior. Isso leva a uma dependência de toda região a uma só linha de ônibus.
Com o alto contingente de pessoas dependentes da linha 565, o resultado é a superlotação dos veículos. O motorista Adriano lembra da vez que chegou a levar quase 200 pessoas em um mesmo carro, ainda que o limite estimado seja de cerca de 80 passageiros – 38 sentados e 42 em pé. As consequências são vividas também pelos motoristas. Com o ônibus cheio, não tem como impedir o “calote” – quando a pessoa entra pela porta traseira do ônibus sem passar pela catraca de pagamento -, principalmente no ponto da Cidade de Deus, segundo o relato de Adriano. Também pela lotação, as brigas são constantes, especialmente de manhã. Nossos repórteres flagraram duas discussões no decorrer das entrevistas in loco.
A quantidade de ônibus e viagens realizadas por horário e por empresa é definida previamente pela Secretaria Municipal de Transporte. O diretor de comunicação e relações institucionais da RioÔnibus Paulo Valente explica que as empresas se adaptam ao planejamento da Prefeitura.
“Se ela [Secretaria Municipal de Transporte] definir que são dez viagens, eu tenho que dar dez viagens. Se eu der menos de oito viagens, eu não recebo o subsídio. Do outro lado também, se eu rodo com doze ônibus, só recebo por onze. Só recebo o subsídio se eu rodar entre 80% a 110% do que a Prefeitura definiu que deve ser rodado em determinadas faixas horárias.” A quantidade de ônibus disponíveis por linha também compõe este planejamento.
Aliado à lotação nos veículos, as janelas fechadas impedem uma boa ventilação. Os aparelhos de ar-condicionado, que justificam o bloqueio das janelas, não existem, não funcionam ou são incapazes de competir com a constante entrada e saída de passageiros. Isso leva a altas temperaturas dentro dos ônibus.
“Uma vez um homem começou a passar mal pelo calor do ônibus e a gente não tinha o que fazer, né? A gente pediu pro motorista parar e o motorista parou. A polícia disse que não tinha como ajudar porque era um problema do ônibus. Aí a gente deixou o moço num canto, num lugar, e a gente teve que seguir viagem porque o motorista também não pode ficar parado porque tem outras pessoas esperando”, divide Gabriel Reis, estudante que pega o 565 todos os dias para ir à escola no Tanque. Gabriel, morador do Jardim Oceânico, conta que essa é a única opção de transporte para o seu trajeto.
Segundo a norma NBR 15570 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), os equipamentos de refrigeração dos ônibus urbanos devem assegurar que, quando a temperatura externa for superior a 30°C, a temperatura interna se mantenha pelo menos 8 graus abaixo. Para fiscalização, os veículos são equipados com sensores que medem a temperatura a cada cinco minutos, e, em caso de descumprimento da norma, a empresa pode não receber o subsídio correspondente à linha. No entanto, nem sempre o sensor funciona adequadamente. Nem todo ônibus municipal, inclusive na linha 565, tem ar condicionado. De acordo com Paulo Valente, a empresa responsável pela linha está em processo de renovação dos veículos e “até o fim do ano vão conseguir ter toda a frota com ar condicionado”, promete.
Um Embate Antigo
Desde 2010, o serviço de transporte por ônibus municipal é uma concessão da Prefeitura a 29 empresas que se organizam pela RioÔnibus, o Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro. Estas empresas, operadoras do transporte rodoviário de passageiros no município carioca, são divididas em quatro consórcios: Intersul, Internorte, Santa Cruz e Transcarioca. A linha 565 é um serviço prestado pela empresa Transportes Futuro, uma subdivisão da Viação Redentor, através da Transcarioca. O consórcio iria até 2028, mas teve o fim antecipado devido ao acordo firmado entre a Prefeitura e os quatro consórcios em audiência de conciliação no Tribunal de Justiça. As licitações para novos consórcios começam em dezembro de 2025, segundo informações divulgadas pelo O Globo.
“O ônibus paga o pecado de não termos uma boa mobilidade urbana”, defende Paulo Valente, diretor de comunicação e relações institucionais da RioÔnibus

“Se eu rodo com doze ônibus, só recebo por onze”, afirma o diretor de relações institucionais da RioÔnibus, Paulo Valente
Frente às queixas apontadas por cidadãos e funcionários, o RioÔnibus vê a Prefeitura como principal responsável por mitigar os problemas. Paulo Valente defende duas razões para o atual estado do transporte rodoviário carioca: a mobilidade urbana e a insegurança jurídica do contrato de consórcio. “A prefeitura contrata as empresas pelo consórcio, mas não cumpre a parte dela do contrato”, acusa Valente. Segundo ele, a Prefeitura deixa de pagar os subsídios devidos e não faz reajustes, o que gera disputas legais há anos. “Nenhuma empresa quer ter ônibus velho, o que não temos é condição de ter ônibus novo”, explica o diretor. Segundo ele, isso ocorre porque as empresas estão reféns das definições de operação e de pagamento da Prefeitura do Rio. As empresas também são afetadas por questões estruturais de deslocamento urbano. Nas palavras de Paulo Valente, o ônibus “paga o pecado de não termos uma boa mobilidade urbana”. Valente ainda afirma que garantir esse bom funcionamento da mobilidade urbana é uma obrigação da Prefeitura.
A Secretaria Municipal de Transporte não respondeu a nenhuma de nossas tentativas de contato.

Por trás dos volantes
A superlotação e as brigas também impactam Diógenes, que trabalha como motorista há 26 anos na linha 565. Quando começou na profissão, a linha ainda era denominada como 755 e circulava entre Cascadura e Gávea. Ele trabalha seis dias por semana no segundo turno, que vai de 12h até às 21h. Em quase todas as viagens, leva o ônibus lotado.

“Com ônibus muito cheio,
acontecem problemas que
não consigo enxergar lá atrás.
Então fica complicado”, conta.
Dirigindo, Diógenes vai escutando reclamações. Para ele, as pessoas não entendem que a demora não é culpa do ônibus, mas do trânsito das ruas e avenidas cariocas.
Apesar do estresse, Diógenes gosta do emprego. Sempre pegando o mesmo caminho no mesmo horário, ele reconhece passageiros que usam o 565 rotineiramente e acaba criando amizades. Com a aproximação, ele já recebeu “festinhas” de aniversário dentro do ônibus: os passageiros levaram bolo, refrigerante e outras comidas.
“Às vezes eles só avisam que ‘vai ter comidinha motô’ e entregam um bolo para mim. Normalmente, são os estudantes que fazem”, conta rindo.
E ele retribui: frequentemente para fora do ponto para jovens de mochila “porque estudante está sempre atrasado”, e eles o lembram de sua filha que faz engenharia na UFF.
Outra apaixonada pela profissão é Maria Natividade, motorista há 22 anos que dirige o 565 desde 2021. Sendo uma mulher, enfrenta outros desafios como passageiros que se recusam a viajar com ela no volante, mas Maria diz não se abalar. Ela conta que se inspirou no tio, também motorista:

“Eu queria ser cobradora e ele sempre falava que era muito sacrificante e que não ia gostar. Fui me aventurar e acabou que eu me apaixonei por ser motorista de ônibus e estou aqui”, conta
Apesar da paixão, são muitos os problemas enfrentados.
“Já passei por situações de assalto, já passei por situações do ônibus quebrar no meio da via e ter que remanejar os passageiros para outro ônibus, meu ônibus já quebrou dentro do túnel também”, divide Maria.
No entanto, nem mesmo as reclamações tiram o sorriso de seu rosto.
“Tem os estresses de vez em quando, com pessoas viciadas, com as pessoas caloteiras, às vezes tem uns passageiros meio estressados [que me dizem] ‘não para não motorista, já tá lotado’, mas a gente vai levando com aquele jeitinho carioca”, diz piscando um olho.
Integração é Justiça Social
O engenheiro e pesquisador pela UFRJ Leonardo Vieira Barbalho aponta que a mobilidade urbana é um problema histórico no Rio de Janeiro, especialmente nas Zonas Oeste e Sudoeste. Para ele, a baixa qualidade do transporte público nestas regiões se dá pela má operação das empresas responsáveis, bem como de uma característica sócio-territorial de domínio de serviços alternativos. A situação é piorada pelo planejamento insatisfatório do poder público que ignora dados de estudo de demanda, não segue parâmetros de sustentabilidade e negligencia a chamada mobilidade urbana ativa – caminhar, andar de bicicleta, entre outros.

“Especialmente nas Zonas Oeste e Sudoeste, falta uma atenção maior para a população não depender tanto do transporte motorizado individual, que gera problemas de tráfego e ambientais. Tinha que se pensar em uma mobilidade urbana mais eficiente, considerando as necessidades da população e dando condições da população se deslocar com dignidade”.
– Leonardo Barbalho, engenheiro e pesquisador da UFRJ
O “transporte pirata” ainda leva a extinção de certas linhas devido ao desinteresse das empresas em competir com prestadores de serviços sem regulamentação. Com a inauguração dos BRTs, diversas linhas de ônibus também foram extintas por terem sido supostamente substituídas pelo transporte mais rápido do novo serviço. Tem-se hoje o que Barbalho chama de pseudo-integração modal, isto é, a ilusão de que os diferentes meios de transporte se complementam e são suficientes para garantir uma boa mobilidade urbana no Rio. No entanto, de acordo com o engenheiro, regiões como a Freguesia e o Pechincha, em Jacarepaguá, sofrem com a extinção de linhas inteiras de ônibus, mesmo que não sejam caminho do BRT.
“Na minha opinião”, defende o pesquisador, “o BRT deveria somar com as linhas alimentadoras e não concorrer, pois eles têm objetivos diferentes”.
A população fica refém das únicas linhas que sobraram, como é o caso do 565. A solução, para Barbalho, não é aumentar o número de veículos por linha – o que aumentaria o trânsito -, mas diversificar as linhas oferecidas seguindo a real demanda da população.
Marlene, aposentada que mora na Estrada do Gabinal, na Freguesia, é uma das pessoas que dependem da linha:
“Ia ser muito difícil [se o 565 não existisse], porque a gente já não tem muitas conduções por causa do BRT. Aqui na área da Freguesia não tem BRT, né? Então a gente realmente depende do ônibus. Meu filho fazia faculdade na Gávea e pegava esse ônibus todos os dias, sem esse ônibus ele não tinha como [fazer o trajeto]”.
Juan, morador do Jardim América, também depende do 565 para chegar ao trabalho na Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca. Sem a linha, não conseguiria fazer integração com o BRT Transcarioca e gastaria um tempo maior para se deslocar.

Inseguranças pelas ruas cariocas
Entre janeiro e outubro de 2025, cerca de 2 mil ônibus municipais foram vandalizados e outros 250 utilizados como barricadas na cidade do Rio de Janeiro, segundo dados disponibilizados pelo RioÔnibus. As informações ainda revelam que 780 linhas tinham sido desviadas do trajeto padrão por questões de segurança. Para as empresas, o prejuízo total gerado pelos ônibus que foram incendiados e vandalizados chega aos R$25 milhões, de acordo com os cálculos do RioÔnibus. Em 2024, o prejuízo havia sido de R$30 milhões segundo os mesmos dados. Só no mês de outubro de 2025, a quantidade de ônibus utilizados como barricadas foi maior que esse mesmo levantamento durante todo o ano de 2024. Entre janeiro e outubro, o aumento de barricadas foi de 120% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Josué, coordenador de operações da linha 565 no Terminal Mestre Candeia, no Tanque, diz que “no Rio de Janeiro, barricada é normal; sempre tem quando tem operação”
Ele conta que “todo ônibus que passa pela Cidade de Deus e pela Gardênia sofre, né? O primeiro que passa eles pegam, mandam o motorista embora e roubam a chave para fazer o ônibus de barricada” .
Na sexta-feira, dia 21 de novembro, em meio às entrevistas no Terminal do Tanque, Uriel, motorista de 27 anos relatou um caso da manhã:
“Hoje, quando estava vindo da Gávea, perto do hospital Lourenço Jorge [na Barra da Tijuca] uma passageira me abordou, baleada, com um tiro nas costas pedindo carona. Ela alegou que levou este tiro hoje na operação da Cidade de Deus. Foi a primeira vez que me aconteceu de uma passageira aparecer baleada, porém operação é constante dentro da Cidade de Deus e às vezes acaba de a gente ter que trocar a rota para poder não ficar na linha de fogo. Não só na Cidade de Deus, aqui no Tanque já teve vez de a gente ter que tirar os ônibus daqui porque quiseram colocar fogo nos ônibus. Então é uma linha que tem vários pontos sensíveis em relação à segurança”.
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