por Beatriz Fonseca e Júlia Duarte

Quem passa pelo Rua Lauro Muller, em Botafogo, pode se deparar com um grupo de homens jovens, em sua maioria negros, sentados na calçada sob a sombra de uma única árvore. Atrás do Shopping RioSul, os entregadores da plataforma IFood esperam notificar os aplicativos pedindo seus serviços. A sua volta, bicicletas e bolsas térmicas quadradas descansam no concreto. De segunda à segunda, quase sempre os mesmos frequentadores se reúnem entre uma entrega e outra das 10 horas da manhã às 10 horas da noite, horário de funcionamento do shopping. Entre corridas e coletas – ato de retirar a comida no restaurante escolhido pelo usuário da plataforma -, criou-se uma comunidade de trabalhadores.

Quando falaram ao Espada, era aniversário de 29 anos de Hiago, um dos membros da “tropa”, como eles se referem ao grupo.

“Eu passo todos os meus dias aqui, só vou para casa para dormir porque tô aqui até depois que os restaurantes do shopping fecham. Não tinha porque eu não passar o aniversário aqui com a tropa. E também, se eu não venho não recebo, né”, conta Hiago.

Anderson dos Santos trabalha fazendo entregas pela Zona Sul do Rio de Janeiro. Morador da Jardim América, Zona Norte, seu trajeto diário conta com duas linhas de BRT e o ônibus 483. O entregador explica que o fluxo de trabalho depende da demanda da plataforma, maior nos horários de almoço e janta. Debaixo da árvore, encontrou amigos com quem passar o tempo entre idas e vindas e, também, uma rede de apoio:
“Meu pneu fura pelo menos umas duas vezes na semana, e daí alguém sempre me empresta. Já rolou de pegarem aquelas bikes do Itaú pra mim também”, diz apontando para uma fila de bicicletas laranjas, parte de um sistema de aluguel de bicicletas operado pela Tembici e patrocinado pelo banco Itaú.

Para Anderson, a situação poderia ser pior se ele tivesse de carregar sua bicicleta pelo transporte público. Na “tropa”, ele encontrou a solução: deixar seu equipamento de trabalho amarrado a um poste na rua de Yan, outro entregador que mora mais perto do posto não oficial de trabalho. Yan se sente mais sortudo que os amigos do grupo.
“Eu pelo menos moro aqui perto, consigo guardar para ter um dinheirinho pra consertar a bike quando quebra, tenho dinheiro pra comprar meu lanche, porque a maioria vem da Maré trazendo a bicicleta e a marmita”, afirma Yan, entregador da plataforma há 1 ano.
Um entregador recebe em média R$1,50 por quilômetro rodado, segundo contas dos próprios trabalhadores. No entanto, o dinheiro só é recebido se a coleta e a entrega forem feitas dentro do tempo estipulado pelo sistema do IFood, caso contrário o caminho inconcluso gera prejuízo. Os rendimentos caem na conta do entregador semanalmente às quartas-feiras. Para os entregadores, o valor baixo do serviço faz com que o trabalho só compense com uma quantidade alta de corridas por dia, de preferência feitas de forma rápida. Alguns dos frequentadores do ponto de encontro continuam pedalando pelas ruas cariocas noite adentro mesmo após o encerramento das atividades no RioSul. A renda é proporcional ao tempo dedicado à plataforma. Assim, a presença dos jovens na Zona Sul é garantida a despeito do dia da semana.

De acordo com a pesquisa da Clínica de Direito do Trabalho da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a quantidade de trabalhadores que prestam serviços por plataformas digitais cresceu quase 50% entre 2021 e 2024 no país, chegando ao contingente de 23 milhões de pessoas atuando no setor. Mais de 92% dessas pessoas prestam serviços ligados à localização, como transporte de passageiros e entregas.
Para o pesquisador colaborador do estudo Marcelo Manzano, economista e professor da Unicamp, “essas empresas são oligopolistas, quase monopolistas. O caso do iFood é dramático. No setor de transporte, com a Uber, isso também é muito claro. Esse domínio reduz o poder de negociação dos trabalhadores e favorece a imposição de regras prejudiciais a eles”.

O pesquisador da Universidade Federal Fluminense Lucas Souza defende que o crescimento da presença no mercado destas empresas é parte do fenômeno da plataformização. Agravado a cada ano, trata-se de uma crescente intermediação de plataformas digitais nas relações trabalhistas, na realização de atividades e no consumo. O problema mora, para o pesquisador, na ausência de vínculos trabalhistas na maioria dessas plataformas. “Elas têm caráter majoritariamente precarizado, com baixos pagamentos, ausência de vínculos trabalhistas, insegurança quanto aos ganhos e quanto à previsibilidade da oferta de novas tarefas”, descreve.
“A falta de regulamentação e a possibilidade de jornadas muito além das 44 horas padrões permitem ganhos acima de um salário mínimo tradicional, e isso pode ser atrativo em um primeiro momento. Mas o custo disso, a médio e mesmo curto prazo, é o adoecimento físico e psicológico destes trabalhadores”, afirma. “O que ocorre na prática é a execução de exaustíssimas jornadas de trabalho, que facilmente ultrapassam 70 horas semanais, sem pagamento de horas extras, férias remuneradas, seguros realmente eficazes em caso de acidentes, décimo terceiro salário, entre outros direitos trabalhistas”, acrescenta.
Enquanto as empresas atuam “no limite da legalidade”, os entregadores sobrevivem. Nas palavras de Anderson: “Aqui, a gente se ajuda porque se depender do Ifood…”

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