Autor: admin

  • “Tropa” de entregadores do IFood resiste à plataformização em Botafogo

    “Tropa” de entregadores do IFood resiste à plataformização em Botafogo

    por Beatriz Fonseca e Júlia Duarte

    Quem passa pelo Rua Lauro Muller, em Botafogo, pode se deparar com um grupo de homens jovens, em sua maioria negros, sentados na calçada sob a sombra de uma única árvore. Atrás do Shopping RioSul, os entregadores da plataforma IFood esperam notificar os aplicativos pedindo seus serviços. A sua volta, bicicletas e bolsas térmicas quadradas descansam no concreto. De segunda à segunda, quase sempre os mesmos frequentadores se reúnem entre uma entrega e outra das 10 horas da manhã às 10 horas da noite, horário de funcionamento do shopping. Entre corridas e coletas – ato de retirar a comida no restaurante escolhido pelo usuário da plataforma -, criou-se uma comunidade de trabalhadores.

    Debaixo da árvore

    Quando falaram ao Espada, era aniversário de 29 anos de Hiago, um dos membros da “tropa”, como eles se referem ao grupo.

    O aniversariante e sua bicicleta

    “Eu passo todos os meus dias aqui, só vou para casa para dormir porque tô aqui até depois que os restaurantes do shopping fecham. Não tinha porque eu não passar o aniversário aqui com a tropa. E também, se eu não venho não recebo, né”, conta Hiago.

    Anderson dos Santos trabalha fazendo entregas pela Zona Sul do Rio de Janeiro. Morador da Jardim América, Zona Norte, seu trajeto diário conta com duas linhas de BRT e o ônibus 483. O entregador explica que o fluxo de trabalho depende da demanda da plataforma, maior nos horários de almoço e janta. Debaixo da árvore, encontrou amigos com quem passar o tempo entre idas e vindas e, também, uma rede de apoio: 

    “Meu pneu fura pelo menos umas duas vezes na semana, e daí alguém sempre me empresta. Já rolou de pegarem aquelas bikes do Itaú pra mim também”, diz apontando para uma fila de bicicletas laranjas, parte de um sistema de aluguel de bicicletas operado pela Tembici e patrocinado pelo banco Itaú.

    Yan nas “bikes do Itaú”

    Para Anderson, a situação poderia ser pior se ele tivesse de carregar sua bicicleta pelo transporte público. Na “tropa”, ele encontrou a solução: deixar seu equipamento de trabalho amarrado a um poste na rua de Yan, outro entregador que mora mais perto do posto não oficial de trabalho. Yan se sente mais sortudo que os amigos do grupo.

    “Eu pelo menos moro aqui perto, consigo guardar para ter um dinheirinho pra consertar a bike quando quebra, tenho dinheiro pra comprar meu lanche, porque a maioria vem da Maré trazendo a bicicleta e a marmita”, afirma Yan, entregador da plataforma há 1 ano.

    Um entregador recebe em média R$1,50 por quilômetro rodado, segundo contas dos próprios trabalhadores. No entanto, o dinheiro só é recebido se a coleta e a entrega forem feitas dentro do tempo estipulado pelo sistema do IFood, caso contrário o caminho inconcluso gera prejuízo. Os rendimentos caem na conta do entregador semanalmente às quartas-feiras. Para os entregadores, o valor baixo do serviço faz com que o trabalho só compense com uma quantidade alta de corridas por dia, de preferência feitas de forma rápida. Alguns dos frequentadores do ponto de encontro continuam pedalando pelas ruas cariocas noite adentro mesmo após o encerramento das atividades no RioSul. A renda é proporcional ao tempo dedicado à plataforma. Assim, a presença dos jovens na Zona Sul é garantida a despeito do dia da semana.

    Debaixo da árvore

    De acordo com a pesquisa da Clínica de Direito do Trabalho da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a quantidade de trabalhadores que prestam serviços por plataformas digitais cresceu quase 50% entre 2021 e 2024 no país, chegando ao contingente de 23 milhões de pessoas atuando no setor. Mais de 92% dessas pessoas prestam serviços ligados à  localização, como transporte de passageiros e entregas.

    Para o pesquisador colaborador do estudo Marcelo Manzano, economista e professor da Unicamp, “essas empresas são oligopolistas, quase monopolistas. O caso do iFood é dramático. No setor de transporte, com a Uber, isso também é muito claro. Esse domínio reduz o poder de negociação dos trabalhadores e favorece a imposição de regras prejudiciais a eles”. 

    Poucos conseguem ter uma moto para o serviço, a maioria dos jovens usa bicicletas

    O pesquisador da Universidade Federal Fluminense Lucas Souza defende que o crescimento da presença no mercado destas empresas é parte do fenômeno da plataformização. Agravado a cada ano, trata-se de uma crescente intermediação de plataformas digitais nas relações trabalhistas, na realização de atividades e no consumo. O problema mora, para o pesquisador, na ausência de vínculos trabalhistas na maioria dessas plataformas. “Elas têm caráter majoritariamente precarizado, com baixos pagamentos, ausência de vínculos trabalhistas, insegurança quanto aos ganhos e quanto à previsibilidade da oferta de novas tarefas”, descreve.

    “A falta de regulamentação e a possibilidade de jornadas muito além das 44 horas padrões permitem ganhos acima de um salário mínimo tradicional, e isso pode ser atrativo em um primeiro momento. Mas o custo disso, a médio e mesmo curto prazo, é o adoecimento físico e psicológico destes trabalhadores”, afirma. “O que ocorre na prática é a execução de exaustíssimas jornadas de trabalho, que facilmente ultrapassam 70 horas semanais, sem pagamento de horas extras, férias remuneradas, seguros realmente eficazes em caso de acidentes, décimo terceiro salário, entre outros direitos trabalhistas”, acrescenta.

    Enquanto as empresas atuam “no limite da legalidade”, os entregadores sobrevivem. Nas palavras de Anderson: “Aqui, a gente se ajuda porque se depender do Ifood…”

    A tropa
  • 565: Do Tanque a Gávea

    565: Do Tanque a Gávea

    Só em 2024, nove milhões de passageiros usaram essa linha de ônibus, em um total de 3,3 milhões de quilômetros rodados

    por Alessandra Pereira, Beatriz Fonseca, Clara Maria, Julia Duarte e Thaís Avilez

    Seja dia útil ou feriado, ele parte às 4 horas da manhã do Tanque, região do bairro de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, até a Gávea, bairro nobre da cidade. Em seu caminho, passa pela Freguesia, pela Barra da Tijuca e pelo Jardim Oceânico até a Praça Nossa Senhora Auxiliadora, em frente à Sede do Clube de Regatas do Flamengo na Lagoa Rodrigo de Freitas. Dali, sem parar por mais de quinze minutos, volta ao Terminal Mestre Candeia em uma viagem de cerca de 30 km que dura mais de uma hora. Nesse vai e vem ininterrupto até às dez horas da noite, ele passa calor, estresse e escuta muita reclamação enquanto enfrenta o trânsito incontornável da grande metrópole.

    Ele se cansa muito, mas em vez de pernas doloridas, têm pneus desgastados. Em vez de coração acelerado, um motor que ronca alto. A linha de ônibus 565 transporta milhares de pessoas por dia. Só em setembro de 2025, foram 683 mil passageiros, segundo o Relatório de Operação Mensal desenvolvido pela Coordenadoria Geral de Monitoramento da Secretaria Municipal de Transporte do Rio de Janeiro. No ano passado, 9 milhões de passageiros usaram o ônibus 565, em um total de 59 mil viagens e 3,3 milhões de quilômetros rodados, segundo o mesmo . Estas centenas de milhares de pessoas compartilham das mesmas queixas – as principais sendo o calor dentro do veículo e a superlotação enfrentada todos os dias.

    “Independentemente do horário, o ônibus está cheio. […] Ás vezes, mesmo no horário de pico, eu chego na estação e só tem um carro e uma fila enorme. A fila só aumenta e o ônibus já sai cheio. […] Ele passa por muitos lugares e acaba indo entupido, o que não é bom para os cidadãos.”

    Vitor Manoel, morador do Tanque, é estagiário em um escritório de advocacia no Leblon, bairro vizinho à Gávea. Ele usa diariamente o 565 e afirma:

    “Independentemente do horário, o ônibus está cheio. No horário de pico, o ônibus passa com uma frequência maior, mas, ainda assim, eu sinto que a linha não tem carro suficiente para poder incluir toda a população que precisa pegá-la. Às vezes, mesmo no horário de pico, eu chego na estação e só tem um carro e uma fila enorme. A fila só aumenta e o ônibus já sai cheio, sendo que ele ainda tem que pegar gente em todo o bairro de Jacarepaguá, na Barra [da Tijuca]… Enfim, ele passa por muitos lugares e acaba indo entupido, o que não é bom para os cidadãos”.

    Vitor Manoel usa a linha 565 todos os dias

    Porém, para o motorista Adriano, a queixa feita por alguns passageiros de que são poucos ônibus é injusta, uma vez que ele passa de 10 em 10 minutos. O problema, na visão do motorista, é que o 565 é o único transporte público a fazer seu trajeto: diferentes caminhos podem ligar um ponto da linha 565 a outro, mas com um tempo maior. Isso leva a uma dependência de toda região a uma só linha de ônibus.

    Com o alto contingente de pessoas dependentes da linha 565, o resultado é a superlotação dos veículos. O motorista Adriano lembra da vez que chegou a levar quase 200 pessoas em um mesmo carro, ainda que o limite estimado seja de cerca de 80 passageiros – 38 sentados e 42 em pé. As consequências são vividas também pelos motoristas. Com o ônibus cheio, não tem como impedir o “calote” – quando a pessoa entra pela porta traseira do ônibus sem passar pela catraca de pagamento -, principalmente no ponto da Cidade de Deus, segundo o relato de Adriano. Também pela lotação, as brigas são constantes, especialmente de manhã. Nossos repórteres flagraram duas discussões no decorrer das entrevistas in loco.

    A quantidade de ônibus e viagens realizadas por horário e por empresa é definida previamente pela Secretaria Municipal de Transporte. O diretor de comunicação e relações institucionais da RioÔnibus Paulo Valente explica que as empresas se adaptam ao planejamento da Prefeitura.

    “Se ela [Secretaria Municipal de Transporte] definir que são dez viagens, eu tenho que dar dez viagens. Se eu der menos de oito viagens, eu não recebo o subsídio. Do outro lado também, se eu rodo com doze ônibus, só recebo por onze. Só recebo o subsídio se eu rodar entre 80% a 110% do que a Prefeitura definiu que deve ser rodado em determinadas faixas horárias.” A quantidade de ônibus disponíveis por linha também compõe este planejamento.

    Aliado à lotação nos veículos, as janelas fechadas impedem uma boa ventilação. Os aparelhos de ar-condicionado, que justificam o bloqueio das janelas, não existem, não funcionam ou são incapazes de competir com a constante entrada e saída de passageiros. Isso leva a altas temperaturas dentro dos ônibus.

    “Uma vez um homem começou a passar mal pelo calor do ônibus e a gente não tinha o que fazer, né? A gente pediu pro motorista parar e o motorista parou. A polícia disse que não tinha como ajudar porque era um problema do ônibus. Aí a gente deixou o moço num canto, num lugar, e a gente teve que seguir viagem porque o motorista também não pode ficar parado porque tem outras pessoas esperando”, divide Gabriel Reis, estudante que pega o 565 todos os dias para ir à escola no Tanque. Gabriel, morador do Jardim Oceânico, conta que essa é a única opção de transporte para o seu trajeto.

    Segundo a norma NBR 15570 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), os equipamentos de refrigeração dos ônibus urbanos devem assegurar que, quando a temperatura externa for superior a 30°C, a temperatura interna se mantenha pelo menos 8 graus abaixo. Para fiscalização, os veículos são equipados com sensores que medem a temperatura a cada cinco minutos, e, em caso de descumprimento da norma, a empresa pode não receber o subsídio correspondente à linha. No entanto, nem sempre o sensor funciona adequadamente. Nem todo ônibus municipal, inclusive na linha 565, tem ar condicionado. De acordo com Paulo Valente, a empresa responsável pela linha está em processo de renovação dos veículos e “até o fim do ano vão conseguir ter toda a frota com ar condicionado”, promete.

    Um Embate Antigo

    Desde 2010, o serviço de transporte por ônibus municipal é uma concessão da Prefeitura a 29 empresas que se organizam pela RioÔnibus, o Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro. Estas empresas, operadoras do transporte rodoviário de passageiros no município carioca, são divididas em quatro consórcios: Intersul, Internorte, Santa Cruz e Transcarioca. A linha 565 é um serviço prestado pela empresa Transportes Futuro, uma subdivisão da Viação Redentor, através da Transcarioca. O consórcio iria até 2028, mas teve o fim antecipado devido ao acordo firmado entre a Prefeitura e os quatro consórcios em audiência de conciliação no Tribunal de Justiça. As licitações para novos consórcios começam em dezembro de 2025, segundo informações divulgadas pelo O Globo.

    “O ônibus paga o pecado de não termos uma boa mobilidade urbana”, defende Paulo Valente, diretor de comunicação e relações institucionais da RioÔnibus

    “Se eu rodo com doze ônibus, só recebo por onze”, afirma o diretor de relações institucionais da RioÔnibus, Paulo Valente

    Frente às queixas apontadas por cidadãos e funcionários, o RioÔnibus vê a Prefeitura como principal responsável por mitigar os problemas. Paulo Valente defende duas razões para o atual estado do transporte rodoviário carioca: a mobilidade urbana e a insegurança jurídica do contrato de consórcio. “A prefeitura contrata as empresas pelo consórcio, mas não cumpre a parte dela do contrato”, acusa Valente. Segundo ele, a Prefeitura deixa de pagar os subsídios devidos e não faz reajustes, o que gera disputas legais há anos. “Nenhuma empresa quer ter ônibus velho, o que não temos é condição de ter ônibus novo”, explica o diretor. Segundo ele, isso ocorre porque as empresas estão reféns das definições de operação e de pagamento da Prefeitura do Rio. As empresas também são afetadas por questões estruturais de deslocamento urbano. Nas palavras de Paulo Valente, o ônibus “paga o pecado de não termos uma boa mobilidade urbana”. Valente ainda afirma que garantir esse bom funcionamento da mobilidade urbana é uma obrigação da Prefeitura.

    A Secretaria Municipal de Transporte não respondeu a nenhuma de nossas tentativas de contato.

    Por trás dos volantes

    A superlotação e as brigas também impactam Diógenes, que trabalha como motorista há 26 anos na linha 565. Quando começou na profissão, a linha ainda era denominada como 755 e circulava entre Cascadura e Gávea. Ele trabalha seis dias por semana no segundo turno, que vai de 12h até às 21h. Em quase todas as viagens, leva o ônibus lotado.

    “Com ônibus muito cheio,

    acontecem problemas que

    não consigo enxergar lá atrás.

    Então fica complicado”, conta.

    Dirigindo, Diógenes vai escutando reclamações. Para ele, as pessoas não entendem que a demora não é culpa do ônibus, mas do trânsito das ruas e avenidas cariocas.

    Apesar do estresse, Diógenes gosta do emprego. Sempre pegando o mesmo caminho no mesmo horário, ele reconhece passageiros que usam o 565 rotineiramente e acaba criando amizades. Com a aproximação, ele já recebeu “festinhas” de aniversário dentro do ônibus: os passageiros levaram bolo, refrigerante e outras comidas. 

    “Às vezes eles só avisam que ‘vai ter comidinha motô’ e entregam um bolo para mim. Normalmente, são os estudantes que fazem”, conta rindo.

    E ele retribui: frequentemente para fora do ponto para jovens de mochila “porque estudante está sempre atrasado”, e eles o lembram de sua filha que faz engenharia na UFF. 

    Outra apaixonada pela profissão é Maria Natividade, motorista há 22 anos que dirige o 565 desde 2021. Sendo uma mulher, enfrenta outros desafios como passageiros que se recusam a viajar com ela no volante, mas Maria diz não se abalar. Ela conta que se inspirou no tio, também motorista: 

    Maria Natividade

    “Eu queria ser cobradora e ele sempre falava que era muito sacrificante e que não ia gostar. Fui me aventurar e acabou que eu me apaixonei por ser motorista de ônibus e estou aqui”, conta

    Apesar da paixão, são muitos os problemas enfrentados. 

    “Já passei por situações de assalto, já passei por situações do ônibus quebrar no meio da via e ter que remanejar os passageiros para outro ônibus, meu ônibus já quebrou dentro do túnel também”, divide Maria. 

    No entanto, nem mesmo as reclamações tiram o sorriso de seu rosto. 

    “Tem os estresses de vez em quando, com pessoas viciadas, com as pessoas caloteiras, às vezes tem uns passageiros meio estressados [que me dizem] ‘não para não motorista, já tá lotado’, mas a gente vai levando com aquele jeitinho carioca”, diz piscando um olho. 

    Integração é Justiça Social

    O engenheiro e pesquisador pela UFRJ Leonardo Vieira Barbalho aponta que a mobilidade urbana é um problema histórico no Rio de Janeiro, especialmente nas Zonas Oeste e Sudoeste. Para ele, a baixa qualidade do transporte público nestas regiões se dá pela má operação das empresas responsáveis, bem como de uma característica sócio-territorial de domínio de serviços alternativos. A situação é piorada pelo planejamento insatisfatório do poder público que ignora dados de estudo de demanda, não segue parâmetros de sustentabilidade e negligencia a chamada mobilidade urbana ativa – caminhar, andar de bicicleta, entre outros. 

    “Especialmente nas Zonas Oeste e Sudoeste, falta uma atenção maior para a população não depender tanto do transporte motorizado individual, que gera problemas de tráfego e ambientais. Tinha que se pensar em uma mobilidade urbana mais eficiente, considerando as necessidades da população e dando condições da população se deslocar com dignidade”.

    – Leonardo Barbalho, engenheiro e pesquisador da UFRJ

    O “transporte pirata” ainda leva a extinção de certas linhas devido ao desinteresse das empresas em competir com prestadores de serviços sem regulamentação. Com a inauguração dos BRTs, diversas linhas de ônibus também foram extintas por terem sido supostamente substituídas pelo transporte mais rápido do novo serviço. Tem-se hoje o que Barbalho chama de pseudo-integração modal, isto é, a ilusão de que os diferentes meios de transporte se complementam e são suficientes para garantir uma boa mobilidade urbana no Rio. No entanto, de acordo com o engenheiro, regiões como a Freguesia e o Pechincha, em Jacarepaguá, sofrem com a extinção de linhas inteiras de ônibus, mesmo que não sejam caminho do BRT. 

    “Na minha opinião”, defende o pesquisador, “o BRT deveria somar com as linhas alimentadoras e não concorrer, pois eles têm objetivos diferentes”.

    A população fica refém das únicas linhas que sobraram, como é o caso do 565. A solução, para Barbalho, não é aumentar o número de veículos por linha – o que aumentaria o trânsito -, mas diversificar as linhas oferecidas seguindo a real demanda da população.

    Marlene, aposentada que mora na Estrada do Gabinal, na Freguesia, é uma das pessoas que dependem da linha:

    “Ia ser muito difícil [se o 565 não existisse], porque a gente já não tem muitas conduções por causa do BRT. Aqui na área da Freguesia não tem BRT, né? Então a gente realmente depende do ônibus. Meu filho fazia faculdade na Gávea e pegava esse ônibus todos os dias, sem esse ônibus ele não tinha como [fazer o trajeto]”.

    Juan, morador do Jardim América, também depende do 565 para chegar ao trabalho na Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca. Sem a linha, não conseguiria fazer integração com o BRT Transcarioca e gastaria um tempo maior para se deslocar.

    Inseguranças pelas ruas cariocas

    Entre janeiro e outubro de 2025, cerca de 2 mil ônibus municipais foram vandalizados e outros 250 utilizados como barricadas na cidade do Rio de Janeiro, segundo dados disponibilizados pelo RioÔnibus. As informações ainda revelam que 780 linhas tinham sido desviadas do trajeto padrão por questões de segurança. Para as empresas, o prejuízo total gerado pelos ônibus que foram incendiados e vandalizados chega aos R$25 milhões, de acordo com os cálculos do RioÔnibus. Em 2024, o prejuízo havia sido de R$30 milhões segundo os mesmos dados. Só no mês de outubro de 2025, a quantidade de ônibus utilizados como barricadas foi maior que esse mesmo levantamento durante todo o ano de 2024. Entre janeiro e outubro, o aumento de barricadas foi de 120% em comparação ao mesmo período do ano passado.

    Josué, coordenador de operações da linha 565 no Terminal Mestre Candeia, no Tanque, diz que “no Rio de Janeiro, barricada é normal; sempre tem quando tem operação”

    Ele conta que “todo ônibus que passa pela Cidade de Deus e pela Gardênia sofre, né? O primeiro que passa eles pegam, mandam o motorista embora e roubam a chave para fazer o ônibus de barricada” . 

    Na sexta-feira, dia 21 de novembro, em meio às entrevistas no Terminal do Tanque, Uriel, motorista de 27 anos relatou um caso da manhã:

    “Hoje, quando estava vindo da Gávea, perto do hospital Lourenço Jorge [na Barra da Tijuca] uma passageira me abordou, baleada, com um tiro nas costas pedindo carona. Ela alegou que levou este tiro hoje na operação da Cidade de Deus. Foi a primeira vez que me aconteceu de uma passageira aparecer baleada, porém operação é constante dentro da Cidade de Deus e às vezes acaba de a gente ter que trocar a rota para poder não ficar na linha de fogo. Não só na Cidade de Deus, aqui no Tanque já teve vez de a gente ter que tirar os ônibus daqui porque quiseram colocar fogo nos ônibus. Então é uma linha que tem vários pontos sensíveis em relação à segurança”.

  • Viagem na moto, na cabeça e na noite: uma noite como entregadora de IFood

    Viagem na moto, na cabeça e na noite: uma noite como entregadora de IFood

    O sol chega perto do horizonte quando uma moto Factor 150 vermelha se aproxima e estaciona em minha frente. O piloto levanta a viseira, me entrega um capacete e uma mochila e, antes de me cumprimentar, diz rindo “hoje você vai ser minha mochilinha carregando a mochila”. Enquanto obedeço a ordem subentendida de subir na moto, vamos rindo sobre quem reconheceu o outro primeiro no ponto de encontro — o portão do campus Praia Vermelha da UFRJ, na Urca, Zona Sul do Rio de Janeiro. A mochila tem formato quadrado, é vermelha, estampada com o logo da empresa IFood, de um tecido vinílico e é grande o suficiente para comportar um cooler de isopor. O capacete não tem viseira. Prendo os dois ao meu corpo com travas, ambos grandes demais para mim e subo na garupa, enquanto o celular já apita com a primeira entrega.

    Eu já havia conhecido Lucas Eduardo Marinho, de 30 anos, duas semanas antes, em uma corrida de moto pelo aplicativo da uber — eu indo ao Centro do Rio, ele como piloto. Além de rodar como motorista de aplicativo nas noites fluminenses, ele trabalha como entregador de um restaurante de Maricá, cidade onde mora que fica a 60 km do Rio, no horário de almoço. Na ocasião perguntei se ele tinha amigos entregadores e contei da minha intenção de acompanhar um por uma noite. “Pô, vem comigo que a gente vai nessa aventura”, foi a resposta dele.

    ATO I: Perdidos

    Duas semanas depois estávamos os dois descobrindo como é ser entregador pelo IFood na capital — até subir na moto eu não sabia, mas ele só tinha tido experiências com a plataforma em Maricá. Ainda na Av. Venceslau Brás, em Botafogo, na Zona Sul, o celular apitou com a primeira entrega: do shopping RioSul, também em Botafogo, à um condomínio no Cosme e Velho, Zona Sul. Entramos errado em três entradas diferentes do estacionamento do prédio até que descobríssemos a entrada específica para motoboys, a qual não tinha nenhuma sinalização. Em um micro estacionamento isolado, os entregadores desligam a moto e sobem por uma escada separada da entrada convencional de clientes. Não são vistos pelos consumidores do shopping.

    O aplicativo define um tempo para a “coleta” — isto é, pegar a comida no restaurante -, e um tempo para a entrega ao pagante. Caso o motoqueiro não “colete” antes do previsto, a entrega é repassada a outro entregador e o primeiro motorista perde a corrida sem ganhar pelos quilômetros rodados na tentativa de coletar. Após nossa confusão no RioSul, Lucas quase perdeu a coleta por minuto. Depois, no caminho para a entrega, também nos confundimos com as várias vias de Botafogo, não subimos no Viaduto e tivemos que dar uma volta maior no bairro para conseguir chegar à Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras. Apesar da iminência do prejuízo de gastar gasolina sem receber pelos quilômetros a mais, ele se diverte comigo nos caminhos errados e ri quando me pergunta por onde seguir e eu escolho a opção errada.

    “Somos dois perdidos na noite”, ele diz e, depois de alguns segundos em silêncio, completa que “somos dois perdidos na vida”.

    Mesmo com toda a confusão, ele confia em mim quando sugiro que ele entre na Rua das Laranjeiras por baixo do Viaduto Eng. Noronha. Entregamos a encomenda na portaria de um condomínio no Cosme e Velho, e o porteiro nos passa o código de quatro dígitos passado ao cliente e sem o qual o entregador não pode seguir caminho. A troca de cifras serve para assegurar que a entrega foi realizada com sucesso. Assim que ele coloca o código, o aplicativo pede que ele faça um reconhecimento facial. Trata-se de um protocolo repetido durante toda a noite para garantir que a conta de entregador está sendo usada pela mesma pessoa cadastrada. A medida é dita como “de segurança”, e serve para impedir que uma conta e os benefícios de ter uma conta antiga sejam compartilhados. Há uma diferenciação de níveis entre entregadores mais experientes e motoboys que trabalham para a plataforma com menor frequência, e um claro incentivo da empresa para que a dedicação ao serviço seja o maior possível. Como Lucas não costuma rodar tanto pelo Ifood, não tem tanta demanda do aplicativo. E, por isso, passamos algum tempo esperando uma nova corrida entre uma entrega e outra.

    Paramos na Praça São Judas Tadeu e, assim que sentamos, Lucas olha para cima e percebe que é possível ver o Cristo Redentor próximo. Ele interrompe o quer que estivéssemos conversando e se empolga com a vista: “eu sou crente, não porque vou à Igreja, mas porque acredito nos ensinamentos DELE, em CRISTO”, diz apontando. Ele acredita que Deus conversa conosco por outros humanos e me conta a história de um homem que o abordou enquanto ele vacinava o filho. O homem fez algum favor para Lucas, ao que ele respondeu com “obrigado”. O sujeito anônimo, então, teria dito que não somos obrigados a ninguém nessa vida, a única obrigação do humano é ter fé e morrer quando Deus quiser. Desde então, Lucas só agradece com “gratidão”.

    Visão do Cristo

    A parada tinha sido para esperar a próxima demanda, mas principalmente para ele fumar seu primeiro cigarro de maconha da noite. “O pit stop é essencial”, fala rindo, “escreve isso aí no caderninho, que sem o pit stop a mente frita”, e começa a bolar um cigarro de seda com a planta tirada de uma pochete cheia de bolsos que carrega transversalmente no peito. Eu vinha anotando tudo que conversávamos na viagem em um caderno cinza pequeno para caber na palma da mão, e continuo escrevendo na frente de Lucas enquanto ele responde às minhas perguntas. Ele me pede para ver e, quando não consegue entender as letras garrafais pela velocidade da moto, começa a rir de novo. Para ele, as páginas estavam tão feias que eu deveria enterrar para que daqui a 500 anos, quando encontrarem o caderno, acharem que é um “novo dialeto”.

    Parte do novo dialeto

    Da praça, partimos. Vou com o caderno pequeno o suficiente para caber na palma de uma mão e uma caneta em outra. Na Rua das Laranjeiras, ele acelera de repente, o vento bate forte em minha mão e me força a soltar a caneta. O estalo no asfalto rompe o som alto do vento que preenche a noite. Lucas também escuta. Eu tento não me desesperar. Sem ela, não posso registrar o que ele me diz. Ele enfia a moto na calçada para voltar alguns metros atrás. Eu vejo a caneta. Um Volkswagen Logan cinza passa. Sem atropelar. Um Fiat Uno branco passa. Sem atropelar. Um Fiat Spin táxi amarelo passa. Sem atropelar. “Três carros não atropelaram, vai lá, vai lá, deus tá com nois”, Lucas grita. Enquanto desço da moto, um Audi preto vem e estraçalha minha Bic preta. Os caquinhos de plástico espalhados no asfalto. A tinta brilhante no chão. “E agora? E agora?”, ele fica me repetindo. Eu procuro no bolso e acho outras canetas, num vislumbre de esperança. Nem a segunda nem a terceira caneta pegam. Seguimos mesmo assim.

    (Em minha defesa, eu levara um microfone para gravá-lo, mas o vento batendo impedia que qualquer coisa fosse ouvida no áudio. Também levara meu celular, mas se eu tinha derrubado a caneta, podia muito bem derrubá-lo com a moto em movimento.)

    Chapado, Lucas vira a cabeça para trás para me dizer, sorrindo enquanto pilota rua acima, que “a vida é boa demais”. No momento, decido ficar em silêncio, porque, geralmente, quando eu esperava, ele repetia e elaborava seus pensamentos. Dois minutos depois, já em outra rua, ele discorda de si mesmo: “é mentira, não é?”. “O que é mentira?”, eu pergunto. “Essa sensação… é uma ilusão da maconha. É uma falsa ilusão de felicidade”, ele reflete. Na primeira vez que tínhamos nos visto, ele disse que queria parar de fumar, ou pelo menos só fumar quando fosse “a hora certa” — e não três becks por dia, como era seu costume há anos. Queria “saber viver a realidade” sóbrio. Mas quando ele me encontrou pela segunda vez, não demorou muito para me informar que trouxera “a boa do Jacaré”. Mais próximo ao fim da noite, já depois do terceiro baseado, ele me confessou que não estava bem, que “os melhores momentos são sem maconha, que esses são de verdade.”

    Depois de fumar, é “preciso matar a larica com um lanche”. Descemos a Rua das Laranjeiras, enquanto vou sugerindo lugares para comer. Ele não aceita parar em nenhum dos hambúrgueres que conheço na região, porque o que ele queria e chamava de “lanche” é o que eu chamo de salgado. Quando nos entendemos, indico uma lanchonete do lado oposto da rua. Ele vira a moto para tentar atravessar as quatro vias de mão dupla da Rua das Laranjeiras em meio ao trânsito, e eu reclamo que a rotatória é logo a frente. Ele desce a contragosto: “era só esperar que dava pra atravessar ali mesmo, não queria descer assim não; tô porque você pediu e gosto de ti, que você sabe como eu dirijo, sabe bem como eu dirijo em qualquer lugar. Não existe isso de lei de trânsito para motoboy, não”.

    Paramos no Pin pin, uma lanchonete pro alto de Laranjeiras em que se come de pé porque não existem bancos. Quando entramos, a atendente parece segurar a risada, o que ele percebe e exclama “a moça tá querendo rir da gente, Bia” apontando com o braço esticado e o dedo muito próximo ao rosto da mulher. Todos começamos a rir da espontaneidade de Lucas, inclusive os funcionários da cozinha, os rostos reunidos em uma pequena janelinha pela qual observam a cena. Eu peço um pedaço de pizza portuguesa amanhecida e ele pede um joelho, uma mini coca-cola para cada. Pergunto à nossa colega de risada se ela teria uma caneta, e se eu poderia ficar com ela. Ela olha para os lados e para trás, conferindo se não está sendo observada e, com a negativa, me dá uma piscadela enquanto faz um joinha com a mão. Eu enfio a caneta no bolso sorrateiramente, despertando ainda mais risada em Lucas.

    Seguimos para uma coleta no Mercado São José e, como já era de se esperar, nos perdemos e quase não chegamos à tempo da coleta — de novo. Não sei como, mas rodamos Laranjeiras inteira naquela noite, repetindo caminhos. Vou segurando a coca-cola dele, e ele agradece a Deus por ter uma assistente naquela noite. A entrega era em Ipanema.

    ATO II: Destemido

    No túnel Rebouças, o velocímetro visível no painel da moto chegou a apontar 150 km/h. Alta madrugada, poucos carros, Lucas aproveitou para meter o dedo na buzina e a mão no acelerador. O vento batendo em meu rosto mal me deixava ficar de olho aberto, sentia a mochila larga quase se perdendo de mim. Só ouvia a buzina em meio à cacofonia de motores e rodas se atritando com o asfalto e sendo ecoados naquele buraco no morro. Se enfiando no corredor entre carros, chegamos na Lagoa Rodrigo de Freitas num tempo que fez o túnel parecer ter menos de 2.800 metros de extensão. Nos entornos da Lagoa, diminuiu a velocidade para uma média de 90 km/h, mas começou a fazer zig-zag nos trechos sem carro. A essa intensidade na direção, minha reação foi desespero. Pensei na minha mãe, pensei que se eu morresse ali, ia dar um trabalho grande para meus amigos — que acompanhavam a localização que eu mandara horas antes -, pensei que não sabia como é o processo de reconhecimento de corpo e o que mais envolve uma morte de conhecido em acidente. Ele riu do meu desespero, mas diminuiu a velocidade. Não pelo medo, mas para conseguir se fazer ouvir enquanto defendia sua “diversão noturna”.

    “Eu não sinto o perigo, não sinto o medo. Alguns riscos têm que ser corridos, tem bagulho que não dá pra obedecer, não. Pensa comigo, você sabe como eu dirijo… Será que andar a 100 km/h sabendo dirigir é mais perigoso que alguém que roda a 40 km/h sem noção de direção? Será que a gente controla? A gente não tá se matando, a gente não pode controlar a morte. A gente não tem que ter medo de morrer, que a gente tem uma missão. A gente não vai morrer nessa noite porque VOCÊ ainda tem uma missão para cumprir. Ou a gente tá nessa PORRA sem motivo? Não pode ser aleatório, não pode ser sem sentido, não pode…”

    Ainda andando devagar para fazer seus argumentos, parou no sinal vermelho e me perguntou o que eu achava daquilo. Ri (nervosa) e disse que não tinha porquê a pressa. “Não é ter pressa, é não perder tempo, que tempo é precioso”, e arrancou com a moto mesmo o sinal ainda fechado. “Eu não consigo me preocupar comigo, mas eu me preocupo com a vida que eu carrego, que eu posso matar”, disse e começou, então, a me contar de seus — VÁRIOS — acidentes, a maioria na ponte Rio-Niterói.

    Já em Ipanema, desci da moto, desprendi a mochila e tirei um pacote de papel pardo de dentro. Na pressa de cumprir com o tempo estipulado pelo Ifood, apertei o número do apartamento informado pelo aplicativo no interfone. Automaticamente o porteiro saiu correndo da recepção e veio receber a encomenda. Enquanto entregava a comida, o cliente atendeu o interfone e perguntou, seco e direto: “o que que foi, hein? Que que foi?”. Respondi que era entrega do Ifood, mas que já entregara para o porteiro, ao que escutei de volta “é pra isso que tem porteiro”. E desligou. Pedi desculpas ao porteiro e seguimos caminho.

    Fizemos outra coleta no Shopping Leblon, onde também há uma entrada específica para entregadores. Nela, não se pode entrar com duas pessoas na moto, o que me fez ficar junto ao segurança/porteiro. “Cuida bem dela, viu?” disse Lucas ao homem, que riu. Na volta, o segurança concluiu nossa conversa com “lá em cima que é bom, aqui nóis é igual rato, só faz trabalhar”. Lucas, que acabara de chegar, respondeu, com uma piscadela: “aqui que a gente é feliz de verdade”.

    Na segunda entrega em Ipanema, não tem porteiro visível, nem ninguém que responda ao botão de “portaria” no interfone. Então, apesar da experiência prévia, digito o número do apartamento no interfone. “Pode subir?”, pergunta a voz da caixa preta. “O senhor pode descer?”, peço com minha voz mais mansa. Dois minutos depois, um rapaz aparece e abre o portão só o suficiente para colocar o braço para fora e puxar o pacote de minha mão. Se vira sem dizer uma palavra, e, enquanto entra de volta no prédio, tenho que gritar pedindo o código de quatro dígitos, sem os quais não é possível confirmar a entrega no aplicativo. Ele responde já de dentro do prédio sem olhar para trás.

    Factor 150 vermelha de Lucas

    Seguindo pelas ruas do Leblon e Ipanema, os restaurantes de luzes amarelas e taças dispostas em mesas brancas tinham filas de mulheres de saias e homens de blusa social esperando para entrar. “Será que é muito caro aqui?”, me perguntou Lucas. “Muito”, respondi. No Satyricon, restaurante mediterrâneo na Rua Barão de Torres, o prato mais barato sai por R$150,00. Na esquina oposta ao restaurante, sentamos na calçada para Lucas fumar seu segundo baseado. Enquanto conversamos, somos abordados por um casal gringo que me pergunta, em espanhol, onde era o restaurante. Nem cinco minutos depois, um entregador vestido com bermuda amarela, camiseta amarela e boné amarelo com estampa da 99 food, em uma bicicleta também amarela passa e comenta do “cheiro bom” que vinha da maconha de Lucas.

    “Qual foi?”, escuto de repente uma voz vinda de trás, sem ter percebido a aproximação de ninguém. Um homem todo de preto, já grisalho e quase careca, com um visível volume na cintura por baixo da camisa se aproxima. “Boa noite”, ele diz, seco, “tudo bem por aqui?”. Falando de como o bairro está cada dia mais perigoso, e de como tiros passam despercebidos, o suposto segurança parece tentar nos ameaçar a sairmos dali. Lucas parece não ver perigo e responde com simpatia. Mas decidimos sair dali quando o homem volta por onde veio.

    ATO III: Brisado

    Até podermos parar pela segunda vez, Lucas foi sendo tomado por uma ansiedade maior a cada hora. Depois do segundo baseado, Lucas voltou a andar mais devagar e, com a tranquilidade restaurada, resolveu me levar à praia. Sem colocar os pés descalços na areia como preferia, ele sentou na areia encostando as costas na mochila vermelha. Com a pochete de mil bolsos em mãos para bolar mais um cigarro de maconha, ele me pergunta “o que é a realidade?”. Por eu não ter dado a resposta que ele queria, mas perguntado o porquê de ele estar com essa dúvida, ele sugeriu que eu fumasse para “ficar brisada também”. Se o que eu sinto não necessariamente o outro sente, como o que eu sinto é o real? A realidade é feita de todas as realidades das pessoas? E, se a sua realidade muda, muda a realidade total? São as perguntas que ele me faz enquanto continua fumando. “É tudo física quântica, esses bagulho”, é a conclusão do assunto.

    Lucas fumado na praia de Ipanema na madrugada

    Lucas Eduardo é um homem solitário. Mora sozinho em Maricá, e não fala nunca sobre família. Trabalha sozinho, como entregador de um restaurante na hora do almoço, e como motorista de aplicativo quando quer tirar mais uma grana. E diz gostar de ser assim, que pouca gente consegue entender a “doideira da cabeça” dele. O único contato que tem com outras pessoas é levando na garupa de sua moto, e também por isso prefere a Uber ao IFood. Sua maior companhia, a maconha que ele busca religiosamente na comunidade do Jacaré, zona norte do Rio, parece traí-lo às vezes. Em nossa viagem, ele pareceu ser um homem conformado: diz não querer mais dinheiro, nem mais amigos, nem nada além da moto que já tem, nem sair de onde está. Ele junta dinheiro com a uber sem saber porquê, não tem o que comprar. Pergunto de algum sonho, ele admite não ter nenhum, mas me conta que quer aprender a sonhar.

    “Meus dias como motoboy estão contados. Motoboy batalha para caralho e é digno, mas a vida é mais que isso. Tenho que descobrir o que que tem a mais na vida.” Eu pergunto como. “Eu vou fazer conteúdo para a internet, melhorar de vida e levar os meus amigos.” Esses, são outros homens solteiros da época da escola que trocam mensagens esporadicamente. “Que os meus evoluam comigo”, ele brada para o mar. Lucas confessa não saber por onde começar a fazer conteúdo para a Internet, porque sente que não tem a bagagem de conhecimento para explicar o que pensa e que, às vezes, “nem consigo prestar atenção nas coisas com o tanto de coisa que tem na minha cabeça”. Quando sugiro que ele tente escrever o que ele pensa para organizar tudo que quer falar no vídeo antes de gravar, ele sorri e diz gostar de conversar comigo porque eu “frito o cérebro” dele. Me mostra o braço para mostrar que está arrepiado com nossa conversa. Eu penso no vento frio que vem do mar.

    “Por que eu tô falando tudo isso para você?”, ele diz interrompendo o que dizia até então. Em certo momento da noite, Lucas confessou: “você está dentro da minha cabeça”, ele me disse que eram essas coisas — as que eu escutava — que se passavam em sua cabeça quando ele andava sozinho e agora dizia em voz alta.

    “Você é meu subconsciente personificado!”

    Depois de confissões na areia, um terceiro cigarro de maconha e a demora para o aplicativo mostrar uma nova corrida, finalizamos a noite. Me levando para casa ele aproveita para abastecer no Posto Ipiranga na Rua Real Grandeza, em Botafogo. Se despede de mim com um abraço, me agradece “pela brisa” e segue seu caminho para Maricá, agora carregando a mochila nas próprias costas.